Grupos de trabalho / Bioética e Medicina Narrativa

A Bioética e a Medicina Narrativa são fruto do desejo e da imaginação, da inspiração
poética e da razão, da necessidade de dar resposta às questões éticas persistentes e
emergentes ao longo da história, numa palavra, são fruto da Utopia – o Não-Lugar a
que se aspira como ideal enquanto a existência se desenrola num tempo e num espaço
marcados pela história, pela cultura, pela biologia, pelo ambiente, pela organização ou
pelo caos das relações humanas.
A utopia do reencontro do homem com a natureza que inspirou Potter na sua visão de
uma bioética global é a mesma utopia que inspira a Medicina Narrativa na sua missão
de recentrar o olhar na pessoa doente e não na doença, na pessoa do médico e não
apenas na ciência e na tecnologia, no trabalho em equipas multidisciplinares e não na
excessiva especialização que encerra os cuidados de saúde entre muros, tornando
impraticável a comunicação, silenciando a voz de quem sofre, dificultando o processo
deliberativo e a tomada de decisão. Trata-se de um caminho que se faz caminhando e
que terá necessariamente que passar pela formação dos estudantes de medicina,
dos internos de especialidade, dos médicos, enfermeiros, auxiliares e técnicos, dos
diretores de serviço, dos gestores hospitalares, e da comunidade em geral.
Deliberar sobre questões éticas a partir do contexto atual, mas com o olhar para o
futuro, tem certamente implicações nos cursos de ação propostos e no modo como
agimos. Integrar o passado e futuro na reflexão presente, atendendo à realidade
individual e coletiva e dando espaço à espiritualidade intrínseca ao sofrimento faz
parte da reflexão bioética e da atitude e da prática médicas preconizadas pela
abordagem da medicina narrativa.
Se a Bioética se ocupa da sobrevivência da humanidade e da preservação do humano
da Humanidade, a Medicina Narrativa contribui para estas finalidades no contexto
específico dos cuidados de saúde, servindo como um antídoto para o uso e abuso dos

valores métricos e preditivos dos ensaios clínicos e da prática clínica orientada pela
abordagem uniformizadora da Medicina Baseada na Evidência.
Regresssando à idea da Utopia como ponte entre a Bioética e a Medicina Narrativa,
recordemos as palavras de Eduardo Galeano que, por sua vez, cita o realizador de
cinema argentino Fernado Birri: “a utopia é algo que colocamos no nosso horizonte,
damos dez passos e ela afasta-se dez passos, damos mais dez passos e ela afasta-se
outros dez. Mas é para isso mesmo que ela serve – para nos fazer caminhar”.

 

Susana Teixeira Magalhães

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