Publicações e Artigos / Elaboração de manuscritos

Introdução

As avassaladoras inovações que se registam na saúde acarretam indispensáveis ajustamentos na educação e na investigação desta área. Sendo a criação de novos conhecimentos e a sua translação para a prática componentes fundamentais de qualquer processo formativo, importa instruir os potenciais candidatos a publicar trabalhos, e até os possíveis árbitros, acerca das novas regras que não param de surgir no panorama cada vez mais largo das revistas de saúde. Deste modo, procura-se contribuir para a harmonização dos interesses de todos os implicados, criando um clima de transparência que evite equívocos, prejuízos e más interpretações. Só assim se podem estratificar os méritos e fazer julgamentos justos, não dando oportunidade para confusões ou decisões mal fundamentadas. Há experiência de processos de avaliação de propostas diversas que tem sido, por vezes, desoladora, lamentando-se apreciações opacas, que criam um ambiente negativo e atributos de suspeições que verdadeiramente a ninguém aproveitam.

A qualidade clínica, de que a segurança dos doentes é um forte componente, não obstante a sua extraordinária importância, só nos finais do século XX começa a despertar maior interesse. É até estranho que, sabendo-se do valor dos trabalhos publicados na produção de conhecimentos generalizáveis, não se veja as escolas médicas a tratar devidamente o assunto. Torna-se necessário que a interpretação de resultados e a dificuldade de compreender os textos e as metodologias usadas possam ser tratadas com pormenor bem como a estrutura geral e as fases de elaboração de um trabalho científico para uma dada área.

De qualquer modo, pode dizer-se que um grande número de profissionais tem evidentes dificuldades na elaboração de trabalhos científicos, não surpreendendo que ao longo de muitos anos se tenham publicado guias, guidelines, instruções para os autores e até livros especializados. O método científico impôs-se, e a medicina baseada na evidência ganhou estatuto de enorme exigência. Assim se constituíram agências de avaliação de índole diversa e nem sempre com critérios lineares ou a desejada relação com a vida prática. Esta excessiva atenção à medicina baseada na evidência passou a ser uma moda que alguns passivamente aceitaram, assistindo-se actualmente a interpretações sobre o seu valor que só se justificam pelo modo acrítico como tem sido encarada. A ciência pragmática encontrou nestes exageros um campo para se expandir. Porém, não tem sido fácil a vida dos seus cultores, tendo-se criado uma brecha entre os cientistas puros e duros e habitualmente adeptos da medicina baseada na evidência e os que consideram que o acto médico é também científico e, ele próprio, cria evidência. Nesta encruzilhada situa-se a elaboração de trabalhos científicos relacionados com a melhoria da qualidade e a segurança dos doentes, cuja proliferação se acentuou no início deste século e que estão claramente relacionados com os processos de acreditação e certificação que as instituições de saúde começaram a encarar como determinantes para a melhoria dos seus desempenhos. Mas também é necessário identificar a confusão frequente de simples processos de gestão com trabalhos de índole essencialmente científica. Reconhecendo-se que, não estando as fronteiras claramente demarcadas, a verdade é que se torna necessário consagrar as diferenças e defender o rigor científico das publicações que possam contribuir para a melhoria da qualidade e da segurança dos doentes com a criação de novos conhecimentos e sua aplicação na prática clínica. Esta é uma área que não se pode circunscrever a visões sectoriais, antes exige que grupos de trabalho de profissionais de qualidade científica reconhecida possam elaborar guidelines relacionadas com publicações sobre a matéria em causa. Os Standards for Quality Improvement Reporting Excellence (SQUIRE) oferecem uma lista informativa para a descrição de estudos sobre a melhoria da qualidade que muitas vezes têm intervenções que evoluem ao longo do tempo e são dependentes dos contextos1      .

Quer na clínica, quer na melhoria da qualidade, a investigação é conduzida para observar ou explicar algo que seja desconhecido ou para avaliar o impacto de uma intervenção num determinado resultado. Os ensaios clínicos randomizados avaliam geralmente o impacto de uma terapêutica num resultado, algumas vezes comparando com um placebo ou uma terapêutica alternativa, na maior parte das vezes controlando todos os outros cuidados. A melhoria da qualidade é mais confusa porque envolve comportamentos humanos que mudam na prática, testam e transformam intervenções ao longo do tempo, desenvolvem teorias que explicam como a intervenção se relaciona com melhores resultados, incorporando como os contextos locais influenciam a implementação e, muitas vezes, avaliando os desempenhos2. Como pode deduzir-se, este emaranhado de variáveis justifica que os autores de trabalhos nesta área possam dispor de guidelines que os ajudem a desenredar a natureza complexa dos trabalhos relacionados com a melhoria da qualidade. Segundo alguns autores2 as quatro fases para elaboração de um manuscrito compreendem planeamento, escrita, submissão e revisão. As últimas fases (submissão e revisão) estão dependentes de regras pré-estabelecidas e variam consoante os casos. Focar-nos-emos, por isso, no planeamento e escrita, áreas em que os desempenhos dos autores mais vezes manifestam insuficiências que poderão ser evitadas. Na fase do planeamento há que definir o público a que se vai dirigir o artigo e como consequência selecionar a revista mais adequada.

Tendo – nos situados durante largos anos na área da investigação biomédica, fomos sujeitos ao escrutínio próprio das revistas dessa área para onde enviávamos os artigos. Nos últimos anos, motivados pelos recentes desafios e avanços da saúde, entendemos ser necessário fortalecer os nossos conhecimentos e as nossas acções nas áreas emergentes da qualidade, segurança e gestão do risco. Esta transição colocou-nos perante inúmeras discussões, divergências e até excessiva agressividade entre os dois campos – os cientistas clássicos e os cientistas pragmáticos que, desenvolvendo intenso trabalho nas já referidas áreas, necessitavam de dar a conhecer os resultados obtidos e eventualmente os novos conhecimentos gerados. As grandes divergências observadas com argumentos por vezes inaceitáveis deixam espaço para que se definam mais claramente as regras do jogo de modo a acautelar o essencial – cuidados com melhores resultados e avaliação correcta da robustez científica dos trabalhos a publicar. Sobretudo é necessário evitar que na discussão pública de teses de mestrado e/ou doutoramento e na apreciação dos trabalhos da qualidade sejam usados argumentos da natureza científica pura e dura, como se não houvesse dignidade bastante na área da ciência pragmática.

Por isso as guidelines para publicação de estudos investigacionais são ferramentas importantes para facilitar a tarefa. Elas especificam um conjunto de itens necessários para uma clarificação dos métodos de estudos e achados subsequentes. Como é compreensível há um elevado número de guidelines – CONSORT (ensaios controlados e randomizados), PRISMA (revisões sistemáticas e meta-análises para avaliação de intervenções nos cuidados de saúde), STARD (estudos de acuidade diagnóstica), STROBE (estudos observacionais em epidemiologia), SQUIRE (melhoria da qualidade e segurança dos doentes) e outras referidas pelo Equator Network Group3 .  Este grupo – Equator Network, é uma iniciativa internacional destinada a melhorar as condições para publicar, mediante a comparação de recursos que facilitem a publicação da investigação em saúde, proporcionando uma aprendizagem acerca das guidelines disponíveis e apoiando o desenvolvimento de novas. O website Equator 3 constitui uma valiosa fonte informativa para autores, editores, revisores e responsáveis pelo desenvolvimento de guidelines. O site tem links com mais de 200 registos de guidelines e um conjunto de potencialidades informativas e educacionais em inglês e espanhol. Estamos, portanto, num novo enquadramento das políticas de investigação na área da saúde, levantando-se a questão da investigação qualitativa. Esta explora fenómenos complexos, enfrentados pelos clínicos, outros profissionais, políticos e consumidores. Embora estejam disponíveis cheklists (COREQ e ENTREQ) 4 , há ainda um longo caminho a percorrer, sendo aconselhável que este reconhecimento seja importante para que se publique mais, acautelando a qualidade científica.

 

Bibliografia

  1. Davidoff F., Batalden P.,  Stevens D. ,  Ogrinc G. , Moone S. Publication guidelines for quality improvement in health care: evolution of the SQUIRE project. Qual Saf Health Care 2008; 17(Suppl I):i3–i9.

 

  1. Holzmeller C., Pronovost P. Organising a manuscript reporting quality improvement or patient safety research. BMJ Qual Saf 2013; 22:777-785.

 

  1. http://www.equator-network.org/

4. Tong A., Flemming K., McInnes E, Oliver S. Enhancing transparency in reporting the synthesis of qualitative research: ENTREQ. BMC Medical Research Methodology201212:181.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *