Pontos de Vista e Editoriais / HE-UFP: Um lugar para a inovação.

Desde há centenas de anos que existe uma ligação muita estrita entre o ensino na área da saúde e os hospitais. Os modelos que têm suportado essa relação foram-se modificando ao longo dos anos e o predomínio de uma ou outra das partes tem variado de um modo que não se ajusta às reais necessidades do processo educativo. Pode mesmo dizer-se que o atual modelo de relacionamento se encontra profundamente desajustado aquilo que tem sido a evolução do ensino na área da saúde. Efetivamente a dupla tutela (saúde e educação) quando não a tripla (saúde, educação e investigação) têm-se revelado modelos organizacionais inadequados e nunca nos planos legal e organizacional foram reconhecidas verdadeiramente as especificidades desse tipo de hospitais. O modelo do Hospital- Escola da Universidade Fernando Pessoa, com a sua tutela única contorna esses obstáculos e tem um programa diretor que comtempla as três valências adequadamente, privilegiando um estreito relacionamento entre elas de tal modo que o aperfeiçoamento de qualquer uma acarreta o aperfeiçoamento das outras.

Concebido para desempenhar um papel relevante no campo assistencial, de acordo com estudos prévios relativos às necessidades das populações alvo, vocacionado para o estabelecimento de parcerias com outras unidades de saúde próximas, dispondo de um quadro de profissionais altamente diferenciados em tarefas de saúde e educação, apostando em ações de solidariedade, centrando a sua ação nos interesses dos doentes e dos alunos e livre do espartilho de medidas cegas de contenção de despesas, o Hospital-Escola tem tudo para ser diferente. O seu estatuto, não replicável noutros hospitais com ensino, constituirá uma mais-valia para as estruturas educacionais da Universidade Fernando Pessoa que passam a dispor de uma unidade hospitalar moderna, com equipamento tecnológico sofisticado e instalações concebidas segundo as mais atuais normas da arquitetura e engenharia hospitalares.

A atenção dada aos inconvenientes de uma pulverização desintegrada das estruturas dirigentes aconselha a que se adotem modelos organizacionais inovadores e evitem normas de funcionamento em radical antagonismo com os princípios tidos como essenciais. Por isso o novo Hospital não se irá fechar sobre si próprio, proporcionando contactos com instituições do país e do estrangeiro de modo a que se comparem os resultados que forem obtidos e avaliem os desempenhos pessoais e estruturais, sempre na perspetiva de uma melhoria contínua da qualidade e de uma maior segurança de doentes e profissionais. Para que estes objetivos sejam mais facilmente a atingidos, o Hospital- Escola contará com uma organização com modelos integradores, como é o caso da qualidade, segurança dos doentes e gestão do risco. O grupo técnico para a reforma hospitalar criado pelo Ministério da Saúde considera como alavanca fundamental para as mudanças estruturais a qualidade nas suas vertentes clínicas e de gestão, acrescentando que “a qualidade é ainda o pilar central do desenvolvimento dos programas de eficiência desenhados especificamente para cada hospital”. Não havendo nesta área barreiras demasiado rígidas, o Hospital contará com uma unidade de saúde ocupacional que compreenderá a medicina no trabalho e a higiene e segurança no trabalho e ainda com uma unidade de epidemiologia clínica que incluirá a investigação com ela relacionada tudo aconselhando que estas unidades estejam englobadas numa estrutura que superiormente as coordena e assim mais facilmente proporcionará uma perfeita articulação com o macro-sistema da organização. Os referidos modelos integradores estarão garantidos na área assistencial mediante o funcionamento de equipas multidisciplinares em que diferentes especialistas se juntam para assistência mais qualificada. Neste ambiente diversificado e flexível o Hospital- Escola garantirá uma melhor integração organizacional, tantas vezes impossível em estruturas de cariz mais tradicional onde maus hábitos adquiridos e relações de poder ambíguas incapacitam as mudanças indispensáveis.

O ensino confinado aos grandes hospitais, submersos em regras de funcionamento que olham cada vez mais para a contenção de despesas e menos para sua função social e formativa faz com que o Hospital- Escola evite modelos obsoletos já testados e ofereça uma perspetiva diferente, procurando ganhar a confiança dos que a ele ocorrem, apostando numa gestão por objetivos e assim criando uma imagem de marca.

O Hospital-Escola não será apenas uma instituição de assistência e docência mas uma estrutura física e humana adequada à criação de novos conhecimentos no universo da relação saúde/ doença. Como alguém disse, nos estabelecimentos hospitalares a exceção é que neles se desenvolva investigação sustentável e coerente, ressalvando exemplos que, por serem exceções, não são regra. Por isso a instituição apostará nas diversas vertentes da investigação em saúde com grupos que assegurem a criação de novos conhecimentos e contribuam para a formação de um novo tipo de profissionais e deem continuidade e expansão a projetos já em curso.

Ainda que a mudança, ao ocorrer, possa gerar alguma turbulência, é aconselhável pensar que num ambiente tão volátil e complexo como o da saúde, todos os esforços que conduzam a novos tipos de pensamento devam ser devidamente apoiados.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *