Pontos de Vista e Editoriais / Humanização e Profissionalismo em Saúde

Depois da segunda grande guerra mundial a dignidade humana constituiu-se como um direito ético e um polo de irradiação de profundas transformações sociais, não surpreendendo que tenha surgido a necessidade de se lhe dar um conteúdo mínimo e até um princípio jurídico. Constituindo–se como um centro axiológico do direito constitucional, a dignidade humana abrange vários conteúdos: valor intrínseco, autonomia e valor comunitário, todos, compreensivelmente, com profundas implicações éticas e sociais.

Intrinsecamente ligada à dignidade humana está a humanização. Sendo a medicina complexa, incerta, disfuncional e até, por vezes, irracional, e movimentando-se muito nestes enquadramentos susceptíveis, torna-se necessário elevar a arte da profissão a uma nova condição, manifestando sensibilidade e veneração pelos valores da humanidade. Tudo isto começou há muitos séculos por “ uma confiança que procurou livremente uma consciência “, no elegante dizer de Duhamel, mas, paradoxalmente, este encontro com o próximo que possui tão elevada altitude não pára de se ver rebaixado por alguma modernidade. O que parece mais vital e interessante não é o que sabemos em medicina, mas o que não sabemos, tentando lutar sensatamente contra esta limitação.

Infelizmente a nossa profissão tem-se tornado crescentemente surda aos apelos do coração (percepção dos maiores valores). Os doentes sentem muitas vezes que os médicos deixaram de se preocupar com eles, o que, sendo em muitos casos uma grande injustiça, noutros, infelizmente, tem preocupante pertinência.

Têm sido apontadas qualidades essenciais para o sucesso da medicina: procura de soluções em que todos ganhem, respeito mútuo, trabalho em equipa, clima de confiança, flexibilidade que evite hierarquias excessivas, privilégios mais dirigidos para a cooperação do que para a competição, estímulos ao desenvolvimento dos outros e abertura cultural às artes e às humanidades. Ao sucesso da medicina está intrinsecamente ligado o profissionalismo médico, conceito actualmente muito discutido, com as instituições a gastar demasiadas energias para uma melhor definição e caracterização, o que demonstra uma tendência clássica para tentativas que permitam definições lógicas e tangíveis.

Apesar do profissionalismo englobar um conjunto de qualidades que se opõem a definições e medições, actualmente já se dispõe de ferramentas que ajudam a melhor caracterização.

Como é habitual dizer-se nestas circunstâncias, pode ser difícil de definir, mas identifica-se bem quando estamos perante ele. Realmente o profissionalismo é uma confluência de compromisso, carinho e competência, um trio de comportamentos muito afins da ideia de liderança como conceito relacional. Por isso, na carta de humanização do Hospital da Universidade Fernando Pessoa se apontam como principais prioridades o bem-estar dos doentes, o sentido humano dos comportamentos, a competência e o profissionalismo como atributos essenciais das práticas, a gestão das afinidades e dos conflitos, os direitos e deveres dos doentes e profissionais e o apoio sustentado a todas as iniciativas de humanização. Estas preocupações são essencialmente oportunas no momento em que se assiste a uma “ perda do sentido do humano”, com manifestações de desumanização e de falta de respeito pela vida humana. E, no entanto, algumas destas limitações estão relacionadas com manifestações de avanço, como é o caso do uso indiscriminado da biotecnologia e a evolução descontrolada das sociedades.

Se a ciência médica não tem conotações pessoais, os médicos e os profissionais que aplicam os conhecimentos e as tecnologias dela derivados actuam exactamente no mais íntimo de cada pessoa1 .

A humanização da medicina tem uma componente prática muito grande e esta não dispensa uma formação apurada, o que compreende um contributo enorme das ciências humanas e sociais. O profissionalismo é, pois, uma competência fundamental e os seus fundamentos abrangem o conhecimento, aptidões clínicas e comunicacionais e valores éticos.

Quanto aos comportamentos e atributos do profissionalismo dir-se-á que são tão importantes que não devemos ter posturas passivas sobre o seu ensino e a sua avaliação. Os atributos compreendem a accountability, o altruísmo, a excelência e o humanismo.

Uma proposta que nos parece particularmente oportuna é a criação de um portfólio sobre o profissionalismo de cada profissional, que além de ser um elemento curricular de muita importância, tem potencialidades para facilitar a identificação de carências formativas.

Os líderes esclarecidos do sector da saúde devem, portanto, apoiar o ensino e a avaliação do profissionalismo e estimular culturas organizacionais coerentes com os seus preceitos.

Foi William Osler que disse que a medicina é uma arte e não um negócio e fez apelo à harmonia entre o coração e a mente, chamando a atenção para a segurança dos que se confiam aos médicos que, por isso, têm de estar devidamente familiarizados com a ciência e a arte da sua profissão. Efectivamente, o que se espera de um bom profissional é que seja competente e fiável.

Uma profissão como a medicina pressupõe um chamamento que requer conhecimentos especializados e longa e intensa preparação abrangendo aptidões e atitudes, de modo a que os profissionais se integrem em organizações de padrões elevados que prestem serviços relevantes. Na realidade, o profissionalismo médico é um sistema normativo acerca de como melhor planear e prestar cuidados de saúde, dando relevo aos valores éticos e à criação de confiança.

Grandes instituições mundiais coincidem na defesa dos fundamentos e princípios habitualmente atribuídos à humanização e ao profissionalismo nas instituições de saúde. Reconhecer que o profissionalismo está ligado à obtenção de melhores resultados é evidência que ninguém nega. Mesmo assim, os comportamentos médicos com falta de profissionalismo e até disruptivos são desoladoramente mais frequentes do que seria de esperar. Cria-se, portanto, uma espiral de insatisfação, reclamações, erros e conflitos que ocasionam relações deficientes entre profissionais, doentes e suas famílias, comunicações incorretas, eficácia retardada e custos aumentados. O que todos esperam – sociedades científicas, instituições universitárias e de saúde, organizações profissionais e público em geral, é que os médicos e os profissionais do sector da saúde compreendam a importância dos seus correctos desempenhos para que se possa dispor de um enquadramento bio-psicossocial de qualidade nas nossas instituições. A compreensão de que nestas os doentes devem ocupar o primeiro lugar  e de que a medicina é uma ciência cooperativa permitiu que, ainda no século XIX, a Clínica Mayo começasse a lançar as bases para ser ao longo do tempo uma das mais prestigiadas organizações de saúde.

Esperamos ter demonstrado que a humanização e o profissionalismo da saúde são conceitos demasiado importantes para que possam dar apenas lugar a retóricas inconsequentes e promessas de boas intenções que não acarretem mudanças imprescindíveis. Temos de saber que, apesar do nosso sistema nacional de saúde estar muito bem cotado nacional e internacionalmente, a verdade é que o público não pára de reclamar e de transmitir a desagradável impressão de que não confia nele.

A verdade é que nestes últimos anos as políticas de saúde se têm voltado para a necessidade de acautelar a sua humanização, mas é também forçoso reconhecer que estamos ainda muito  afastados da melhoria que, afinal, todos parecem desejar. Para se sair deste impasse, nada pode ser deixado ao acaso. A humanização e o profissionalismo também se aprendem e todas as iniciativas de formação têm de acontecer num ritmo e com uma qualidade adequados. Este ensino exige tempo e recursos – raízes históricas, definições, valores, atributos, comportamentos e responsabilidades, devendo recorrer-se a conferências, papel dos modelos, reflexões e sessões interativas2. O profissionalismo, sendo uma competência também emocional, pode ser avaliado recorrendo a processos vários: testes de escolha múltipla, objective structural clinical examinacion (OSCE), avaliação pelos doentes, simulação, e registo de incidentes críticos, reclamações, erros e outros lapsos profissionais. Como já referimos, o recurso a portfólios proporcionando feedback formativo e sumativo deve ser incluído nas ferramentas disponíveis para avaliação.

Devemos meditar sobre os motivos que estão na base de uma desconfiança e uma maledicência permanentes sobre um sistema que, como dissemos, está muito bem cotado. Sendo constatações que têm já tempo de sobra, haverá que reconhecer que a questão da humanização nas nossas instituições de saúde é ainda um caso em aberto. Gostaria de sublinhar que, para humanizar as instituições onde trabalhamos, temos antes de nos humanizar a nós próprios, com a certeza de que, sem isso, poderemos definir estratégias muito promissoras, mas não atingiremos os objectivos desejados.

Bibliografia

  1. Kathryn, Daphe M. Ong. Formação Humanista dos Médicos. Acção Médica nº 4 Dezembro, 2014: 31-55.

2. Cruess RLCruess SR. Teaching professionalism: general principles. Med Teach. 2006 May;28(3):205-8.

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