Pontos de Vista e Editoriais / Leadership in Healthcare – A propósito de um livro de leitura obrigatória

Por dever de ofício, mas talvez também por alguma predisposição, as questões da liderança sempre nos interessaram muito. Noutros tempos, as questões a ela ligadas estavam mais subordinadas ao exercício da autoridade. Mesmo nos pequenos meios, figuras como cabos de ordem, regedores e delegados de paz tinham ascendentes conferidos por poderes outorgados para julgar. Por outro lado, professores, médicos e alguns cidadãos mais distintos exerciam nas suas áreas de influência acções de liderança. Conheciam-se ”líderes“ de diversos níveis e diversa competência e o denominador comum de todos estes exemplos estava ligado ao reconhecimento da falta de líderes de base segura com vocação para a excelência e a efectividade.

Estas considerações são motivadas pela leitura de um livro * com poucas páginas, mas com um conteúdo riquíssimo que, tendo sido editado em 2009, mantém actualmente ensinamentos indispensáveis para o exercício da liderança na área da saúde. Nele, o autor defende que não há substituto possível para a reflexão crítica e o diálogo permanente sobre os desafios e as oportunidades das nossas vidas, que são sempre ricas e diversificadas para poderem ser apreendidas em qualquer manual. Pelo contrário, o que é importante tentar é reexaminar os diferentes tipos de escolha que diariamente temos que fazer. Acima de tudo, o que necessitamos não é de palavras de aconselhamento, mas de oportunidades para explorar a dimensão moral e a importância da liderança, preocupando-nos com raciocínios cada vez mais profundos.

Nós não podemos ignorar que errar é humano e a nossa vida não é simples. Temos de fazer escolhas, explorar e desenvolver as nossas capacidades de discernimento e estimular o sentido de partilha, pois só assim nos poderemos movimentar melhor na complexidade deste mundo em que vivemos. Se tudo fosse simples, perder-se-ia um factor de motivação essencial. Necessitamos de estimular a nossa imaginação, tentando resolver problemas em enquadramentos bem definidos, mas também de o fazer noutros diferentes. Os líderes têm de manifestar uma firme recusa em respostas fáceis, desafiando os seus seguidores a encontrar o seu próprio caminho no emaranhado complexo em que estão inseridos. Se estes conceitos têm aplicação geral, não surpreende que na área tão cheia de especificidades da saúde tenham ainda maior acuidade. Efectivamente a saúde é um terreno fértil para a incerteza, as irracionalidades, as disfunções e a volatilidade.

Esta realidade assume, assim, uma enorme importância transcendente, sabendo-se que, para encontrar os caminhos certos neste mosaico de dificuldades, são necessários líderes de diversos níveis, mas todos com bases muito seguras para, deste modo, assegurarem um funcionamento sistémico da saúde mais correcto. Por isso temos de apostar em políticas de melhoria da qualidade para indivíduos e populações, contendo custos e fazendo uma sábia gestão dos recursos humanos. Dir-se-ia que equilibrar missões divergentes e até conflituantes é um desafio permanente que importa ganhar. As nossas prioridades têm de estar claramente definidas uma vez que a saúde muda a um ritmo avassalador, sendo também conveniente idealizar o que o futuro próximo e o longínquo nos possam trazer. Por isso, os nossos desempenhos estão em escrutínio permanente e a estratificação de valores é uma palavra de ordem.

Temos adoptado um modelo consagrado, mas cheio de limitações, como “fornecedores” de ciência e tecnologia e, assim, menorizamos uma visão global e uma compreensão clara do que deve ser o acto médico. Necessitamos essencialmente de conhecer o que é tratar bem os doentes e as populações, dedicando ao profissionalismo e à humanização a atenção que lhes é devida. Como sabemos, o modelo biomédico não esgota o acto médico. Este, temo-lo dito insistentemente, é também um acto social pelo que estamos obrigados a compreender as suas dimensões culturais – comunicação, sociologia, psicologia, antropologia, economia, ética e política, entre outras. A imagem da pirâmide e da tapeçaria que Gunderman invocou parece-nos muito adequada. De facto, uma coisa é ter blocos substituíveis, entrelaçados uns nos outros, mas cada um ocupando o seu próprio espaço, outra coisa é uma tapeçaria composta por numerosos fios entrelaçados uns nos outros, mas nunca se sabendo onde um começa e outro acaba. Se nos focarmos no modo como muitos elementos se agregam em cenários diferentes para formar um todo mutuamente interdependente e coerente, então começamos a perceber o seu real significado. Deste modo somos conduzidos ao funcionamento sistémico da saúde que, em todo mundo, tem carências bem identificadas que, não obstante, continuam a aguardar correção.

O livro que estamos a apreciar é, em nossa opinião, uma preciosidade. Nele se destaca a necessidade de, para além de um modelo biomédico, dedicarmos à nossa profissão uma atenção imprescindível aos aspectos sociais e humanos que ela comporta. Essa tem sido a orientação que inspirou a criação da Associação Para A Segurança dos Doentes (APASD), onde temos procurado valorizar este diálogo multi e interprofissional. Sendo o livro constituído por ensaios acerca destas interligações, dando à liderança um papel de relevo, consideramo-lo de leitura obrigatória para educadores, políticos, profissionais da saúde e cidadãos com preocupações culturais. Acresce que o autor tem experiência pessoal riquíssima pois, além de médico doutorado em pensamento social, possui formação em filantropia, ética e bioética que lhe conferem uma evidente capacidade para pensar “outside the box”.

O livro nas suas vinte páginas iniciais e nos nove capítulos de texto, demonstra uma notável capacidade de síntese, e explica muito pedagogicamente a importância da liderança em saúde. Em espaço tão reduzido é impossível fazer mais ou melhor.

*Gunderman, R., Leadership in Healthcare, 2009, Springer.

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