Pontos de Vista e Editoriais / Reconciliação Terapêutica

O aumento da esperança de vida, o declínio da natalidade e a melhoria dos cuidados de saúde disponíveis, têm conduzido a um envelhecimento gradual da população e consequentemente, ao aumento da prevalência de doenças crónicas e ao aumento da quantidade de medicamentos consumidos, sobretudo nos países desenvolvidos, nomeadamente na Europa.

Inúmeros estudos realizados nas últimas décadas comprovam que o aumento do consumo de medicamentos vem acompanhado com o aumento do aparecimento de EVENTOS ADVERSOS relacionados com MEDICAMENTOS (EAM), que podem representar um risco grave para a saúde dos doentes.

Por exemplo, o estudo EVADUR de 2010, que consistiu num estudo prospetivo de 7 dias, durante 24h/dia, em 21 Serviços de Urgência (SU) espanhóis e que tinha como objetivos, entre outros, determinar a incidência de EAM nos SU, conhecer as suas causas, definir quantos seriam evitáveis e conhecer as suas consequências, concluiu que das cerca de 27 milhões de visitas aos SU nesse ano, 12% dos doentes sofreu algum EAM e que 70% eram evitáveis.

Os ERROS DE MEDICAÇÃO (EM) são os EAM mais frequentes e têm repercussões tanto a nível económico, como a nível social. Problemas de comunicação em pontos de transição assistencial dos doentes, como o internamento, transferência ou alta de uma unidade hospitalar, revelaram-se especialmente críticos,

O processo de utilização do medicamento inclui a prescrição, a produção, a dispensa, a administração e a sua monitorização. Um EM é uma falha nesse processo, que provoca ou tem o potencial de provocar dano ao doente. Os EM são na sua maioria pouco graves, no entanto é importante que sejam detetados o mais precocemente possível, de modo a evitar que ocorram potenciais erros graves mais tarde.

Todos estes dados tornaram premente a criação de estratégias para minorar este grave problema de saúde pública e é neste contexto que surge o conceito de RECONCILIAÇÃO TERAPÊUTICA (RT).

A RT consiste num processo formal de elaboração de uma lista completa, atualizada e precisa da medicação pré-hospitalar dos doentes, que é comparada com a lista de medicação prescrita nos diferentes pontos de transição de cuidados (admissão, transferência e alta hospitalar) de modo a ser possível detetar discrepâncias.

As discrepâncias encontradas devem ser discutidas com o médico prescritor, uma vez que algumas são intencionais e outras não. Estas últimas podem constituir erros de medicação. No caso de serem detetados EM estes devem ser corrigidos nas diferentes interfaces de cuidados. No processo de RT é essencial que todas as alterações terapêuticas sejam comunicadas ao próximo prestador de cuidados.

A RT já é realizada por farmacêuticos hospitalares em alguns hospitais portugueses, uma vez que está demonstrado que permite tornar a utilização de medicamentos mais segura e diminuir os custos diretos e indiretos dessa utilização. No entanto, ao contrário do que é desejável, ainda não é uma prática implícita aos cuidados de saúde prestados aos doentes que recorrem aos serviços de saúde, aumentando assim os riscos e os custos da utilização dos medicamentos no nosso país.
BIBLIOGRAFIA:

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Santiago Tomás Vecina, Manuel Chanovas, Fermín Roqueta, J Alcaraz, Tomás Toranzo. 2010. “Adverse events related to Spanish hospital emergency department care: the EVADUR study.” Emergencias 22 (6): 415-28

Slain, Douglas, Scott E Kincaid, and Teresa S Dunsworth. 2008. “Discrepancies between home medications listed at hospital admission and reported medical conditions.” The American journal of geriatric pharmacotherapy 6(3): 161–6.

Elaborado pela Dr.ª Teresa Cunha, Farmacêutica do Centro Hospitalar do Porto

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