Pontos de Vista e Editoriais / Redescobrir a Beleza na Ciência

“Tanto mar nos pertence, que o deixamos a descoberto como uma conta bancária. Tanta a fortuna, que não a contamos. Portugal tem mais cores que o arco-íris. Tem mais geometria do que Pitágoras. Tem mais musas do que nove musas. E, no entanto, o silêncio rodeia os tesouros que se querem enterrados e o mapa deles perdido.” (Agustina Bessa Luís: Um outro olhar sobre Portugal)

Este comentário da Agustina sobre a relação dos portugueses com o mar parece-me aplicável ao que se passa na relação dos nossos estudantes com a ciência: têm tanta à disposição que já não lhe dão valor.

Mas há outras razões para que as pessoas tenham deixado de apreciar a beleza da ciência, e daí o título desta reflexão: REDESCOBRIR.

Uma dessas razões possíveis é a obrigatoriedade do seu estudo. Como diz Leonardo Coimbra, “Ciência, moral e religião têm de ser momentos de pensamento e não imposições estranhas.” (em: Criacionismo – Síntese Filosófica)

Uma outra razão encontra-se muito bem identificada por Maria Manuel Araújo Jorge no seu belo texto “As ciências e os outros territórios” (Arquivos de Medicina: 11: 384-392, 1997):

            “Oliver Sacks, conhecido neurologista, descreve numa das suas histórias clínicas o caso dum homem que confundiu a mulher com um chapéu…Este homem olhava para as pessoas dum modo estranho, como se se fixasse ora no nariz, ora no queixo, depois no olho direito…sem conseguir vê-las como um todo. A sua relação cognitiva com o mundo baseava-se numa atitude abstracta, formal, categórica, com perda de capacidade emocional concreta, pessoal, enfim, com incapacidade de conhecimento duma realidade global. (…)        O deficit deste doente, a sua agnosia visual, parece-me uma alegoria possível do que se passa com a visão que as ciências nos dão do mundo:…geometrizando e matematizando a realidade, só permitem ver “coisas” (ou partes de coisas) e não “rostos” ou “pessoas””.

Na realidade, COMPREENDER (de cum-prehendere) é apreender em conjunto, levar da diversidade à unidade. E como dizia já, em 1896, William James (em: Essay on Agassiz, citado por Oliver Sacks em Hidden Histories of Science) “The truth of things is after all their living fulness, and some day, from a more commanding point of view than was possible to anyone in Agassiz’ generation, our descendants, enriched with the spoils of all our analytic investigations, will get round again to that higher and simpler way of looking at Nature.”

Finalmente, porque, como de acordo com os cânones do dia, tudo o que se faz deve ser avaliado, acontece muitas vezes que o estudo da ciência está demasiado e doentiamente próximo de exames ou outras avaliações, o que leva a que esse estudo seja feito em situação de stresse. E então, como ensina James P. Henri (Psychological and physiological responses to stress: the right hemisphere and the hypothalamo-pituitary-adrenal axis, an inquiry into problems of human bonding. Acta Physiol Scand. Suppl 640, 1997), para além de, e possivelmente na sequência das subidas não paralelas das concentrações plasmáticas de catecolaminas (adrenalina e noradrenalina) e corticosteróides (cortisol), e da descida da concentração de ocitocina (a hormona da “bem-aventurança”), aparece uma dissociação funcional entre os dois hemisférios cerebrais (o direito, onde se localizam predominantemente as emoções, e o esquerdo, o das funções analíticas e de controle). Isto poderá resultar numa incapacidade de emoção estética associada ao conhecimento científico.

As perdas, para quem deixa de ver a beleza da ciência, são enormíssimas.

E onde está a beleza da ciência?

Está em todos os seus aspectos:

– Nos seus produtos (factos, teorias) . “God gave us two books in which his actions are recorded. One book is the Bible, the other is the Book of Nature. By reading the Book of Nature we can obtain knowledge of God’s work (reading God’s mind as expressed in the works of Nature)”, como nos lembra o famoso cientista Freeman Dyson (em: Infinite in all directions);

– Nos modos de produção (investigação) – “…a ciência em acção é claramente uma obra da liberdade espiritual do homem, indo com as suas invenções (hipóteses) ao encontro do pensamento implícito nos fenómenos, encontro do logos participado com o logos criador” (Leonardo Coimbra). Albert Jacquard (em: Pequeno manual de filosofia para não-filósofos) di-lo dum modo mais simples: “Paralelamente ao nosso casamento de interesse com a lógica (casamento, por vezes, fastidioso), as nossas escapadelas amorosas com a imaginação fazem-nos penetrar nos espaços jubilosos da criação”;

– Nos modos de interpretação / comunicação / divulgação – aqui a beleza reside no amor. Agostinho da Silva (em: Reflexão) descreve-a a propósito da ciência praticada pelos portugueses dos Descobrimentos: “…uma ciência que põe acima de tudo não o prever, não o poder, mas o admirar, o maravilhar-se diante dos novos céus, dos novos climas, dos novos animais, dos novos homens, dos novos costumes e, para além de tudo isso, do infinito poder criador de Deus…Deus que era de tal bondade para as criaturas que punha ao nível da compreensão de um carpinteiro de naus ou de um soldado o que de mais belo havia na sua criação…Ciência que se sabe exprimir, que sabe chegar aos outros, aos que não participam da descoberta, com formas de linguagem simples que todos podem entender…”.

 

Isabel Azevedo (Professora de Bioquímica, Reformada da Universidade do Porto)

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