Publicações e Artigos / INTELIGÊNCIAS CONTAMINADAS (… “ser humano morreu”… )

 

Precisamos de inteligências que não se deixem avassalar pelos cientismos tecnológicos e que mantenham uma total disponibilidade para pensar os vários ângulos das ciências humanas

(sobretudo as ciências médicas…)

evitando que laboratórios e botões tomem conta da cidadela e “cientificamente” transformem os seres humanos em esqueletos informáticos.

As investigações medico-científicas trouxeram-nos um fabuloso acervo de conhecimentos e benefícios. Alteraram culturas, dinamizaram civilizações, encantaram futuros.

Mas também limitaram o que sentimos e o que mentalmente organizamos, induzindo biologismos totalizáveis e subjectividades descartáveis. Frequentemente tal desencadeiam, mesmo sem referências abertas, quando supõem os seres humanos a funcionar como aqueles robots apalhaçados que na Web Summit tanto êxito obtiveram.

Nada reconhecendo de intrinsecamente pessoal, matematizando, tecnologizando, materializando, na atitude primária de quem julga através de imagens e pensa através de algoritmos, tais cientismos contaminaram práticas e conceptualizações

(todos os robots gozam de perfeita Saúde…

se as articulações enferrujam, eficazes almotolias de imediato as lubrificam…)

esquecidos das  particularidades e das complexidades de cada um.

Cada H. Sapiens funciona (sempre) segundo a sua história, a sua memória e os seus sentimentos. Inscreve no corpo as respostas do seu percurso.

Ele é único, na sua interioridade. Jamais funciona apenas no que os laboratórios revelam, mesmo em quânticos detalhes. Menos ainda em tecnicidades ou circuitos preformados, apesar dos aplausos duma certa (in)cultura que em tais planetas exalta uma  Medicina empobrecida.

Inteligência é a capacidade de avaliar pensamentos interpretativos em conjuntos não bloqueados.

Promove escolhas, busca o desconhecido (misteriosidade), mobiliza o melhor que somos. Faz-nos perceber que o azul da água faz parte da água, mas é susceptível de contaminação nas prolongadas ausências do concretismo.

Pode gerar nichos tão cientificamente informados que estupidifica a saúde/doença, o bem estar/mal estar, a dor/tratamento, numa atitude completamente desenquadrada de quem sofre e nos procura

(a inteligência pura, inteiramente livre, não existe…  

mas a clínica impõe um certo grau de pureza sobre as particularidades de cada  um…)

prometendo evidências em números, dados laboratoriais e “papers” epocais.

Tal deriva a si própria se esgota, porque desfoca o que somos e  a espécie a que pertencemos. Numa imaginação de botões em vez de pessoas e numa propagação de sistemas em vez de relações, propõe caminhos onde o acto médico, por mais necessitado de informação que seja, jamais poderá sentar-se

(há inúmeras práticas  contaminadas nos motivos, nos alcances, nos fins…

há práticas onde papeis de música passam por musicalidade, ou, pior ainda,  onde se nega a existência da própria musicalidade…

há práticas que transformam  mecanismos fóbicos em comportamentos   de aparência médica…)

sendo urgente descontaminar a “inteligência da ciência médica” no ensino, na profissão, nas instituições, na comunicação social.

É urgente respeitar o doente e a relação que com ele estabelecemos, antes que alguém… todos… nos digam:

Na Medicina… o ser humano morreu.

 

PORTO

Novembro 2017   

                                                   Jaime Milheiro

(Psicanalista Ensaísta)

 

 

 

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