Uncategorized / A DOENÇA É UM SUICÍDIO PARCELAR

O ser humano sabe que existe e que funciona (sente-se, palpa-se, move-se), num corpo impregnado de subjectividade.

Tem consciência de si, reconhece-se no nome que lhe puseram.

Sabe que existir é temporizar, no silencioso prazer de funcionar.

 

“Eterno” até à secagem do planeta, também sabe que em si mesmo contém um precioso arquivo de histórias, memórias e singularidades emocionais, entrelaçadas num sentimento de continuidade a que chamo:

“Sentimento de percurso”.  

 

Separar o corpo da mente é tão absurdo como separar o oxigénio do hidrogénio na composição da água.

Será impossível fazê-lo.

Seria desfazer quem somos e o que somos.

 

Há marcadas resistências na ultrapassagem do dualismo corpo/mente.

Nem dispomos de instrumentos ou de palavras certas para o fazer.

Falta-nos o que habitualmente assinalo como:

“O Passo-do-índio”.

 

Excluir a subjectividade no corpo será:

estudar o ouvido pensando descobrir a musicalidade do portador

estudar os genitais pensando descobrir a sexualidade da pessoa

estudar o estômago pensando descobrir as gastralgias dum indivíduo mal disposto.

 

A capacidade de pensar pertence à pessoa, não ao cérebro, mesmo que este seja indispensável suporte de quanto na mente se passa.

É a pessoa que dá expressão ao seu cérebro durante o crescimento (ligações, neuroplasticidade), não o cérebro que dá expressão à pessoa.

 

Reconhecendo que não precisaremos de estar doentes para morrer, quando falamos de vulnerabilidades e de doenças de que estaremos então a falar?

De que funcionamentos estaremos a falar?

 

Doenças auto-imunes, reumatologias, cancros, depressões, alergias, “psicotizações” da imagem do corpo (anorexias mentais, transexualidades) e muitas outras doenças de prevalência crescente… não são desgastes nem agressões. Resultam da interioridade.

Resultam, em grande parte, da tentativa de eliminação do tempo interno e da negação da subjectividade que a cultura ferozmente pretende impor. São um preço a pagar, em minha opinião.

Na sua zona íntima frequentemente observo constelações depressivas e tortuosos caminhos de autodestruição.

Apelido-as por isso de: “suicídios parcelares”.

 

Nascidos prematuros, os seres humanos desenvolvem-se numa progressiva escala de necessidades.

Descalços, desprotegidos, desassossegados, apenas sobrevivem através de adequados  suportes afectivos e de comensalidades alimentares, pelo que se obrigam a simbolizar, adiar, mentir e mentalmente representar o objecto protector (tornando-o presente, mesmo na sua ausência), em construções cada vez mais elaboradas.

 

Distinguir medo e desejo, realidade e fantasia, bonito e feio, bom e mau, moral e imoral, são aquisições naturais do crescimento.

Precedendo tudo isso, há uma fundamental inerência da condição humana a que chamo:  

“Misteriosidade”

vivificante inscrição de uma face positiva no medo do desconhecido, presente desde o primeiro ano de vida…

criativa tonificação de todos os motores de busca de conhecimento e de sensibilidade, com particular significado nas questões de Saúde/Doença.

 

Presumo que a ocultação dos genitais femininos, pela posição erecta determinada,  contribuiu muitíssimo para exercitar, vincar e  ampliar essa misteriosidade no interior de cada um.

O(a)s Sapiens corporizaram-na, na sua irreprimível cogitação sobre as diferenças entre homens e mulheres, por entre erotismos, conflitos, negações, domínios, (in)satisfações, competições, omnipotências e destruições, sempre em horizontes pessoalizados.

 

Na luta pelo melhor pedaço, ele(a)s amam-se e odeiam-se, acariciam-se e destroem-se, idealizam-se e sonham-se, num quantitativo muito superior ao da sua própria capacidade de execução.

Foi nessa impossibilidade que dualizaram corpo/mente e disso fizeram a primeira grande “cura”… cura rapidamente tornada insuficiente pelos esfacelos nos pés e pela realística verificação das repetitivas feridas, lágrimas e disfunções.

 

Para se tratarem inventaram as medicinas

Para se compensarem  inventaram as religiões

Para se acautelarem inventaram as instituições

Para se engrandecerem inventaram os dinheiros

… não havendo pessoas nem povos que tais invenções dispensem.

 

“O corpo sabe”, sente, participa em tudo isso, na sua permanente busca de bem estar.

Anular o tempo interno e a subjectividade retira-lhe acesso á misteriosidade e à capacidade inventiva.

Bloqueia-lhe o prazer de funcionar, fermentando depressividade e doença.

 

A doença isola e condensa a depressividade instalada no sujeito,  num processo útil porque lhe preserva a capacidade de funcionar.

Não será uma ruína, em princípio.

Será uma “solução”. A solução possível para depressividades não convertíveis em depressão.

Mata um pouco para não morrer, jamais havendo doenças  “sem razão”.

 

Sabendo-se que milhões de células cancerígenas por todos os corpos vagueiam e só nalguns se fixam

Sabendo-se que milhões de bactérias por todos os corpos circulam e só alguns se infectam

Sabendo-se que milhões de atropelos imunitários em todos os corpos acontecem e só alguns se vitimizam

Sabendo-se que milhões de sofrimentos em todos os corpos existem e só alguns se adoecem

Quem devemos então interrogar e de que forma?

 

Não serão umas quantas superficialidades, ditas neuro psicológicas, que satisfarão tais interrogações.

Há muitíssimas funcionalidades inacessíveis a químicas tecnocêntricas e a esquematizações informáticas. Todos os robots e todos os parafusos gozam de perfeita saúde: basta-lhes azeite nas dobradiças.

Só com novos conceitos e novas formas de investigação as poderemos abordar, porque todas as doenças transportam benefícios (primários e secundários) que o furor científico não admite nem compreende.

 

Os cérebros de Jesus Cristo, Einstein e Hitler em nada seriam diferentes, em minha opinião. Tal como o seu coração.

A diferença não virá daí.

Virá da composição da “água” e do singular arquivo que ao recipiente  deu forma.

Se mudassem de percurso (com 20% de genética), mudariam de calibre.

 

Aos fundamentalistas das neuro-ciências lembraria que quem pensou e escreveu este texto não foi o meu cérebro.

Fui eu, embora sem ele não o pudesse ter feito.

 

Porto

Outubro de 2018

                                                           

Jaime Milheiro  (Psicanalista Ensaísta)

 

 

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